As ações da Intel atingiram na última semana de abril e início de maio seu maior valor em quase 26 anos, superando o pico histórico registrado durante a bolha das empresas “pontocom” no ano 2000. Os papéis da fabricante de chips chegaram a ser negociados acima de US$ 90 — uma valorização de mais de 350% em apenas 12 meses — coroando o que analistas já classificam como uma das maiores viradas da história recente do mercado de tecnologia.
O que torna esse movimento ainda mais impressionante é o contraste absoluto com o passado recente. No início de 2025, as ações da Intel chegaram a ser negociadas na faixa dos US$ 20 — um de seus patamares mais baixos em décadas. Hoje, a companhia vale mais de US$ 350 bilhões e voltou a ser tratada como protagonista na corrida global pela inteligência artificial.
Mas o que explica essa guinada? Neste artigo, vamos destrinchar os resultados financeiros, a nova liderança, as parcerias estratégicas e os produtos que estão recolocando a Intel no centro do mapa da tecnologia.
O Resultado que Surpreendeu Wall Street
O gatilho imediato para a disparada das ações veio em 23 de abril de 2026, quando a Intel reportou seus resultados do primeiro trimestre.
Os números superaram todas as expectativas:
| Indicador | Valor Reportado | Expectativa do Mercado |
|---|---|---|
| Receita | US$ 13,6 bilhões | ~US$ 12,4 bilhões |
| Lucro por Ação (LPA ajustado) | US$ 0,29 | ~US$ 0,02 |
| Margem Bruta (não-GAAP) | 41% | ~34% |
Fonte dos dados: Intel Q1 2026 Earnings Release (intc.com).
A receita ficou US$ 1,4 bilhão acima do ponto médio da própria orientação da empresa, e o lucro por ação representou uma surpresa de 1.350% em relação ao consenso dos analistas. “Apresentamos resultados sólidos no primeiro trimestre, refletindo o papel crescente e essencial da CPU na era da IA e a demanda sem precedentes por silício“, declarou o CFO David Zinsner.
Para o segundo trimestre de 2026, a Intel projeta receita entre US$ 13,8 bilhões e US$ 14,8 bilhões — bem acima dos ~US$ 13 bilhões estimados por analistas da Bloomberg.
No entanto, a Intel não escapou de um dado negativo: a companhia registrou um prejuízo líquido GAAP de US$ 3,7 bilhões no trimestre. Mas esse número tem uma explicação: ele reflete principalmente encargos contábeis de reestruturação, incluindo a recompra da participação de 49% na fábrica Fab 34, na Irlanda — um movimento que o mercado interpretou como sinal de confiança e compromisso com a manufatura própria.
A Revolução Silenciosa: Por que as CPUs Voltaram a Ser o Centro do Universo da IA
Durante os últimos dois anos, o mercado de IA foi dominado por GPUs — os chips que treinam os grandes modelos de linguagem. O senso comum dizia que a Intel havia perdido o bonde da inteligência artificial. Mas 2026 está reescrevendo essa narrativa.
O que mudou? A resposta está na transição do treinamento para a inferência. Modelos de IA já treinados precisam ser executados — e essas execuções, chamadas de inferência, exigem um tipo de processamento que as CPUs fazem com excelência. Com a explosão dos agentes de IA (aqueles que executam tarefas autônomas, como agendar reuniões e gerar relatórios), a demanda por CPUs explodiu.
O próprio CEO Lip-Bu Tan afirmou que a proporção de CPUs para aceleradores (GPUs) nos data centers está migrando do patamar atual de 1:8 para algo entre 1:4 e até 1:1, à medida que as cargas de trabalho se voltam para agentes inteligentes e inferência. Essa reconfiguração está redefinindo o valor estratégico dos processadores Intel.
Os números comprovam a tese. A divisão Data Center and AI (DCAI) da Intel — que concentra os chips para servidores e infraestrutura de IA — registrou receita de US$ 5,1 bilhões no primeiro trimestre de 2026, um salto de 22% em relação ao mesmo período do ano anterior. O lucro operacional do segmento atingiu US$ 1,5 bilhão, com margem de 31% — patamares que a empresa não via há anos.
A receita de negócios impulsionados por IA como um todo cresceu 40% ano a ano e já representa 60% da receita total da companhia. Como resumiu o analista Thomas Hayes, da Great Hill Capital: “Todos estão começando a direcionar pedidos para a Intel, e acredito que ainda estamos nos estágios iniciais desse movimento. A situação passou da apatia para a euforia em um período muito curto.”
A Nova Linha de Produtos: Do Handheld ao Data Center
O momento positivo das ações da Intel também se apoia no roadmap de produtos mais ambicioso da empresa em uma década, todos construídos em torno do processo Intel 18A (1,8 nanômetros) — que combina os transistores RibbonFET (gate-all-around) com a tecnologia PowerVia de fornecimento de energia pela parte traseira do chip.
A Intel chegará à Computex 2026 (de 2 a 6 de junho, em Taipei) com produtos em todas as categorias — algo que não conseguia fazer há dez anos:
- Panther Lake (Core Ultra Série 3): Já presente em mais de 200 designs de notebooks, será expandido para handhelds gamer com a plataforma Arc G3. O chip entrega 180 TOPS de IA combinando CPU, NPU e GPU.
- Nova Lake (Core Ultra Série 4): O desktop de até 52 núcleos com novo soquete e arquitetura inédita será apresentado em preview para lançamento no final de 2026.
- Clearwater Forest (Xeon 6+): O processador para servidores com 288 núcleos de eficiência, primeiro chip de data center fabricado em 18A. Projetado para data centers hyperscale, nuvem e telecomunicações, já começou a ser enviado em março.
O CEO Lip-Bu Tan fará o keynote de abertura da feira em 2 de junho, a apenas 40 quilômetros da sede da TSMC em Taiwan — uma mensagem nada sutil de que a Intel voltou ao jogo da manufatura avançada.
As Parcerias que Ninguém Esperava
A recuperação da Intel não se apoia apenas em produtos — ela também passa por um rearranjo geopolítico e comercial impressionante. Sob a liderança de Lip-Bu Tan, a companhia conseguiu o que parecia impossível há um ano: colocar na mesma mesa gigantes como Apple, Tesla, Google, NVIDIA e Broadcom.
Google, Tesla e Apple: A Intel fechou contratos de fornecimento de CPUs para data centers com o Google Cloud e com a Tesla, e há discussões em andamento para fabricar chips da própria Apple usando o processo 18A.
Terafab de Elon Musk: Em abril, a Intel selou acordo para apoiar o projeto Terafab — a megafábrica de chips de Musk — fornecendo capacidade de produção e tecnologia para Tesla, SpaceX e xAI usando o futuro processo 14A.
NVIDIA, AMD e Broadcom (Protocolo MRC): Na primeira semana de maio, OpenAI, AMD, Intel, NVIDIA, Broadcom e Microsoft anunciaram em conjunto o protocolo MRC (Multipath Reliable Connection) — um novo padrão aberto de interconexão de GPUs para clusters de treinamento de IA com mais de 100.000 aceleradores. O protocolo, dois anos em desenvolvimento, foi liberado para toda a indústria via Open Compute Project na última semana. A Intel está sentada à mesa com todos os gigantes — algo impensável há apenas um ano.
Governo dos EUA: Em agosto de 2025, o governo Trump investiu cerca de US$ 8,9 bilhões na Intel a um preço médio de US$ 20,47 por ação. Com a alta recente, essa participação já vale mais de US$ 36 bilhões — um ganho de cerca de US$ 27 bilhões para os cofres públicos americanos.
A Virada Cultural
A transformação da Intel não é apenas tecnológica — é também cultural. Desde que assumiu, em março de 2025, Lip-Bu Tan empreendeu uma reforma profunda na cultura organizacional da empresa, que era conhecida por excesso de burocracia e lentidão decisória.
As medidas incluíram:
- Cancelamento em massa de reuniões improdutivas
- Redução de dias de trabalho remoto
- Cortes profundos na gestão intermediária (middle management)
- Comunicação direta do CEO com todos os 85.000 funcionários, eliminando filtros hierárquicos
- Foco radical em menos projetos, com cobrança rigorosa de prazos
- Demissão de 30.000 funcionários em um ano como parte do enxugamento
“Quando Lip-Bu assumiu, os e-mails de executivos seniores para a gestão intermediária, que depois reescreviam as coisas com suas próprias palavras para os funcionários, simplesmente acabaram”, relata um funcionário veterano. “As mensagens agora fluem imediatamente para todos. Todo mundo sabe para onde o navio está indo, sem filtros.”
Um segundo funcionário complementa: “Dias inteiros passam sem reuniões, algo que não acontecia aqui antes. Eu me vejo definindo tarefas em conversas de corredor que antes exigiam uma série de e-mails e reuniões.”
Tan também renovou a cúpula da empresa. Na semana passada, nomeou Pushkar Ranade como novo CTO, com a missão de impulsionar o desenvolvimento em “computação quântica, computação neuromórfica, fotônica e novos materiais” — sinalizando que a Intel não quer apenas recuperar o atraso, mas liderar a próxima onda da computação.
Os Desafios Que Permanecem
Apesar do otimismo, a Intel ainda enfrenta desafios consideráveis.
O principal deles é a capacidade de produção. A empresa está operando suas fábricas no limite e, segundo o próprio Lip-Bu Tan, “ainda estamos aquém porque a demanda continua crescendo”. A escassez de chips de memória que afeta toda a indústria de PCs e servidores também pressiona a produção global de dispositivos.
Há também a concorrência da AMD, que também se beneficia do mesmo ciclo de alta das CPUs, e a pressão da ARM, que avança rapidamente no mercado de servidores — já detendo cerca de 20% do segmento de CPU para data centers ao final de 2025, com projeções de crescimento ainda mais agressivas para 2026-2027.
Além disso, há ceticismo entre funcionários e analistas. Embora o momento seja de euforia, muitos se perguntam se a Intel conseguirá sustentar o ritmo de execução. A empresa precisa provar que consegue cumprir prazos de lançamento consistentemente — algo que tem sido seu calcanhar de Aquiles histórico.
Conclusão: O Início de uma Nova Era ou um Ponto Fora da Curva?
As ações da Intel subiram 13%, 28% e 350% — dependendo do recorte — porque o mercado passou a acreditar em três coisas: que a demanda por CPUs na era da IA é real e duradoura, que a reestruturação de Lip-Bu Tan está funcionando e que o roadmap de produtos da Intel voltou a ser competitivo.
Ainda é cedo para cravar se estamos diante de uma virada definitiva ou de um pico de otimismo que pode se desfazer nos próximos trimestres. Mas uma coisa é certa: a Intel, que muitos já haviam dado como morta, está viva — e, pelo menos por enquanto, liderando a recuperação mais impressionante do mercado de tecnologia em 2026.
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