Tesouro de Trilhões: O Brasil no Centro da Corrida por Terras Raras

Fotografia editorial em close-up de um mineral bruto de terras raras sendo segurado por um pesquisador em um laboratório de alta tecnologia, com iluminação cinematográfica ao entardecer.O Brasil no centro da revolução tecnológica: Terras raras são o novo "petróleo" de 2026

O Brasil está sentado sobre um tesouro avaliado em trilhões de dólares — e o mundo acaba de perceber. As chamadas terras raras, um conjunto de 17 elementos químicos essenciais para a fabricação de celulares, carros elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa, colocaram o país no epicentro de uma disputa geopolítica que envolve China, Estados Unidos e União Europeia.

O país detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, com cerca de 21 milhões de toneladas — aproximadamente 23% das reservas globais, atrás apenas da China. Mas a exploração é feita apenas em uma única mina, em Minaçu (GO), operada pela Serra Verde. E essa mina acaba de ser vendida para os Estados Unidos por US$ 2,8 bilhões.

O Caso Serra Verde e a Corrida pelo Controle

Em 20 de abril de 2026, a mineradora americana USA Rare Earth (USAR) anunciou a compra de 100% da Serra Verde, responsável pela mina Pela Ema, em Minaçu, no norte de Goiás. A transação inclui pagamento de US$ 300 milhões em dinheiro e emissão de 126,9 milhões de novas ações. O acordo prevê um contrato de fornecimento de 15 anos, no qual 100% da produção inicial será destinada a uma empresa criada com apoio de agências do governo americano.

A venda acendeu um alerta em Brasília. O partido Rede Sustentabilidade e a deputada federal Heloísa Helena entraram com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a suspensão imediata do negócio, sob o argumento de que ele “pode comprometer o controle nacional sobre recursos considerados estratégicos”. Aliados do governo também acionaram a Procuradoria-Geral da República para investigar a atuação da Agência Nacional de Mineração (ANM) no processo de aprovação.

A Resposta do Congresso: Menos de um Mês Depois

O timing não foi coincidência. Menos de três semanas após a venda da Serra Verde, a Câmara dos Deputados aprovou, na quarta-feira (6), o projeto de lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE) — uma resposta direta do governo brasileiro à corrida global por esses recursos.

O projeto, relatado pelo deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), estabelece um fundo garantidor de até R$ 5 bilhões — com participação da União limitada a R$ 2 bilhões — para financiar projetos no setor mineral. Cria também um regime de incentivos fiscais que podem chegar a 20% dos investimentos, com limite de R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034.

“Não nos sujeitaremos a ser exportadores de commodities minerais. Queremos processá-las, beneficiá-las, transformá-las aqui e agregar valor”, afirmou Jardim em entrevista coletiva. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), foi ainda mais direto: “É um assunto de interesse mundial, é um assunto que está para o futuro, como o petróleo esteve para o desenvolvimento de diversos países importantes. Não tem tecnologia sem a exploração das terras raras e dos minerais críticos”.

Por Que Isso Importa para Você

As terras raras não são “terras” no sentido geográfico, nem são exatamente “raras”. São 17 elementos químicos com propriedades magnéticas e luminescentes únicas, encontrados de forma dispersa na natureza. Eles tornaram possível a miniaturização de componentes eletrônicos e a criação de ímãs superpotentes.

Sem esses minerais, não existiriam smartphones, notebooks, turbinas de energia eólica, carros elétricos e sistemas de defesa como radares e mísseis teleguiados. É por isso que potências globais estão disputando cada grama desses minérios — e o Brasil está no centro dessa disputa.

O Vazio Estratégico e os Desafios

Apesar do potencial geológico, o país enfrenta o que especialistas classificam como um “vazio estratégico”: “Só possuir recursos minerais não assegura vantagem estratégica”, alertou a ex-juíza federal Luciana Bauer à Agência Brasil. Para ela, a falta de um plano com metas de longo prazo que estimulem o desenvolvimento industrial brasileiro impede que o país aproveite plenamente essa riqueza.

O governo Lula também discute o tema em encontro com o presidente dos EUA, Donald Trump, nesta quinta-feira (7) em Washington. Os EUA são um dos maiores interessados nesses minerais, em uma disputa geopolítica para diminuir a dependência da China, que hoje domina a extração e o processamento global.

O Que Esperar nos Próximos Meses

O texto aprovado na Câmara ainda precisa passar pelo Senado e, se aprovado, ser sancionado pelo presidente Lula. O governo terá até 90 dias após a publicação da futura lei para instalar o conselho nacional do setor e regulamentar sua estrutura.

Se você quer entender como outras inovações estão transformando a economia brasileira, leia também nosso artigo sobre as baterias de sódio — que dependem diretamente de minerais críticos para sua produção. E se o que te interessa é o impacto da inteligência artificial no desenvolvimento de novos materiais, confira nossa análise sobre Agentes de IA e o futuro da produtividade.