Era 3 de maio de 1978. A ARPANET, a rede que deu origem à internet, conectava pouco mais de 2.000 pessoas — todas pesquisadores, engenheiros e cientistas. Ninguém usava a rede para vender nada. Até que um marketeiro chamado Gary Thuerk teve uma ideia que lhe pareceu brilhante: enviar um único e-mail promocional para centenas de pessoas de uma só vez.
Ele não sabia, mas estava prestes a enviar o primeiro spam da história — e a provocar uma reação tão furiosa que a própria DARPA, a agência militar que financiava a rede, precisou intervir para proibir a prática.
O Homem que Queria Vender Computadores
Gary Thuerk trabalhava no departamento de marketing da Digital Equipment Corporation (DEC), uma das maiores fabricantes de computadores da época. A DEC estava lançando um novo modelo, o DEC-20, e Thuerk queria divulgar um evento de demonstração que aconteceria em Los Angeles e San Mateo, na Califórnia.
Enviar cartas para 400 pessoas era caro e demorado. Telefonar para cada uma era inviável. Mas havia uma rede de computadores conectando todos aqueles potenciais clientes — a ARPANET — e Thuerk percebeu que poderia alcançá-los com uma única mensagem. Ele pegou um diretório impresso com todos os endereços de e-mail da ARPANET (sim, naquela época cabiam em uma lista de papel), digitou manualmente cada um deles e enviou o convite.
O e-mail começava assim: “DIGITAL WILL BE GIVING A PRODUCT PRESENTATION OF THE NEWEST MEMBERS OF THE DECSYSTEM-20 FAMILY”. Em letras maiúsculas, sem imagens, sem links, sem HTML — o e-mail era puro texto. Mas a reação foi imediata e violenta.
A Bronca que Veio de Cima
Os destinatários ficaram furiosos. Naquela época, a ARPANET era uma rede acadêmica e militar, bancada com dinheiro público. O conceito de usar a rede para fins comerciais era impensável — uma violação da etiqueta, do espírito da comunidade e, para alguns, da lei.
O Major Raymond Czahor, da DARPA, enviou uma repreensão oficial a Thuerk, que entrou para a história como a primeira notificação antipirata da internet. “Isso é uma violação do uso apropriado da ARPANET”, dizia a mensagem, em essência. “Não faça isso de novo.”
Thuerk ficou assustado. Ele não havia pedido autorização a ninguém, e a reação foi muito pior do que imaginava. Mas, apesar da bronca, o e-mail funcionou: a DEC vendeu entre US$ 12 milhões e US$ 14 milhões em equipamentos graças àquela mensagem — um retorno estrondoso para um único disparo de marketing.
Por que “Spam”? A Origem do Nome
Curiosamente, o termo “spam” só seria associado a mensagens indesejadas quase duas décadas depois, nos anos 1990. A origem vem de um esquete do grupo de comédia britânico Monty Python, em que um casal tenta fazer um pedido em um restaurante onde todos os pratos levam Spam — a carne enlatada. Os vikings no restaurante cantam “Spam, Spam, Spam” repetidamente, abafando qualquer outra conversa.
Nos primeiros fóruns da internet, quando alguém queria irritar os outros, inundava a conversa com a palavra “spam” repetida centenas de vezes — uma referência direta ao esquete. A associação com e-mails indesejados veio naturalmente, e o termo pegou.
O Legado do Primeiro Spam
Gary Thuerk não sabia, mas seu convite de 1978 deu início a uma indústria que hoje movimenta bilhões. Estima-se que atualmente mais de 160 bilhões de e-mails de spam são enviados por dia, e representam 85% de todo o tráfego de e-mail do planeta. Leis antispam como o CAN-SPAM Act (EUA, 2003) e a LGPD (Brasil, 2020) são descendentes diretas da bronca do Major Czahor.
Thuerk, que mais tarde foi reconhecido pelo Guinness World Records como o “pai do spam”, nunca pediu desculpas. Em uma entrevista décadas depois, ele admitiu: “Nós percebemos que não era muito bem-vindo”. Mas também fez questão de lembrar que aquela mensagem gerou milhões em vendas.
Hoje, o primeiro spam da história está amplamente documentado em livros, artigos acadêmicos e arquivos digitais sobre a história da internet. É um lembrete de que, às vezes, as maiores revoluções — e as maiores dores de cabeça — começam com um simples ‘enviar’.
