Você está lendo este artigo agora porque dados viajaram pelo fundo do oceano. Cada vídeo que você assiste, cada mensagem que envia, cada transação financeira que realiza — 99% de todo o tráfego internacional de dados passa por cabos submarinos de fibra óptica instalados no leito marinho. E quase todos eles pertencem a países do Norte Global.
Agora, o Brasil e os demais países do BRICS querem mudar esse mapa. A construção de uma rede própria de comunicação de alta velocidade por meio de um cabo submarino BRICS está na mesa desde a 17ª Cúpula do bloco, realizada em julho de 2025 no Rio de Janeiro. O objetivo declarado? Soberania digital.
Neste artigo, vamos explicar por que esse cabo é estrategicamente vital, como ele se conecta com o futuro da inteligência artificial brasileira e o que isso significa para o empreendedor, o desenvolvedor e o cidadão comum.
O Buraco Digital no Oceano: Quem Controla os Dados que Você Usa?
Antes de entender para onde o BRICS quer ir, é preciso visualizar onde estamos. O tráfego de internet entre continentes não viaja por satélite — viaja por cabos instalados a milhares de metros de profundidade, com pouco mais de 5 centímetros de diâmetro. Hoje existem cerca de 597 cabos submarinos em operação ou construção no mundo, totalizando aproximadamente 1,4 milhão de quilômetros de fibra óptica espalhados pelo fundo dos oceanos.
O problema, segundo a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, é que “os cabos de fibra óptica onde hoje circulam os dados são muito concentrados no Norte Global”. Ela defende que “nós temos que ter um cabo próprio, em que os dados sejam nossos, sejam desses países”. O BRICS tem uma justificativa técnica para esse argumento: o bloco reúne 39% da economia mundial e 48,5% da população do planeta, mas depende de infraestrutura de dados controlada por terceiros.
A Grande Jogada: O Renascimento do Cabo BRICS
A proposta de um cabo submarino do BRICS não é nova. Uma primeira versão do projeto, chamada “BRICS Cable”, chegou a ser anunciada em 2012, com 34 mil quilômetros de extensão e capacidade de 12,8 terabits por segundo. O projeto foi abandonado por volta de 2015 devido aos altos custos e à complexidade geopolítica.
Mas o cabo submarino BRICS de 2026 é diferente. A proposta brasileira, liderada pelo presidente Lula e pela ministra Luciana Santos, é mais ambiciosa e pragmática. O primeiro passo foi a inclusão do projeto na Declaração do Rio de Janeiro, documento oficial da 17ª Cúpula do BRICS, que determina a realização de um Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica para a implantação da rede.
Quem paga a conta? O estudo será financiado pelo Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) — o Banco do BRICS, atualmente presidido pela ex-presidenta Dilma Rousseff. O NDB foi escolhido como a instituição que coordenará o levantamento de custos e a modelagem financeira do projeto, que pode ultrapassar 35 mil quilômetros de extensão. Para efeito de comparação, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) — que está diretamente ligado a esse projeto, pois a IA demanda tráfego massivo de dados — já prevê investimentos de R$ 23 bilhões até 2028.
Por que isso é importante para a IA? O compartilhamento de dados entre os países do bloco é apontado como essencial para o “desenvolvimento de inteligências artificiais (IA)”. Hoje, o treinamento de grandes modelos depende de infraestrutura de nuvem concentrada em poucas empresas — majoritariamente americanas. Como discutimos em nosso artigo sobre o supercomputador Santos Dumont, o Brasil está investindo pesado em capacidade computacional própria. Uma rede de dados independente complementaria essa estratégia.
O Brasil como o Hub Natural do Sul Global
O Brasil não está entrando nessa discussão por acaso. O país ocupa uma posição geográfica privilegiada: Fortaleza, no Ceará, é o segundo maior hub de cabos submarinos do mundo, atrás apenas do centro de dados da Virgínia (EUA). De lá, conexões de fibra óptica se espalham para a América do Norte, Europa, África e Ásia.
Cabos como o Américas-II, o South Atlantic Cable System (SACS) e o South Atlantic Interlink (SAIL), operados por empresas como AT&T, Telecom Italia Sparkle e China Unicom, já fazem do Brasil um ponto de passagem obrigatório para dados do hemisfério sul. O SAIL, aliás, conecta Camarões diretamente a Fortaleza com tecnologia de transmissão de 100 Gbps e já é considerado uma peça-chave na futura integração digital do BRICS.
Os Desafios: Geopolítica, Custos e Viabilidade
O projeto enfrenta obstáculos consideráveis. O principal deles é geopolítico: os EUA já anunciaram restrições ao uso de equipamentos chineses em cabos submarinos que se conectam ao país. A FCC (agência reguladora americana) monitora mais de 400 cabos submarinos que respondem por 99% do tráfego internacional de internet.
Em paralelo, a Anatel está articulando uma rede lusófona de proteção a cabos submarinos, com a criação de um protocolo formal de resposta a incidentes cibernéticos, articulação de medidas regulatórias e operacionais, além de iniciativas regionais no âmbito do Mercosul. A Marinha do Brasil também atua na proposição de áreas marítimas protegidas e na discussão sobre a criação de um fundo nacional de financiamento.
A Índia, que assumiu a presidência do bloco no início de 2026, deu continuidade ao debate. Durante a 45ª Reunião do Comitê Gestor de CT&I, realizada em março de 2026, o projeto do cabo submarino BRICS foi mantido entre os temas prioritários, com foco em “ampliar a autonomia digital e a capacidade de conectividade entre os membros do bloco”.
O que Isso Muda na Sua Internet?
Mas, afinal, qual é o impacto prático? A resposta depende do ritmo de implementação, mas três efeitos são previsíveis:
- Menor latência para o Sul Global: Hoje, uma chamada de vídeo entre São Paulo e Joanesburgo pode passar por servidores na Europa ou nos EUA. Com uma rota direta pelo Atlântico Sul, o tempo de resposta cairia significativamente. “A conexão direta dos países do BRICS vai permitir maior velocidade, menor latência, mais estabilidade e segurança para a transmissão de dados do Sul Global”, afirmou a ministra Luciana Santos.
- Preços mais competitivos: A concentração da infraestrutura de dados no Norte Global cria dependência econômica. A diversificação de rotas poderia reduzir custos de conectividade para empresas e consumidores brasileiros. O ecossistema de dados do país está diretamente vinculado a uma estrutura tecnológica em expansão, que inclui data centers de alta capacidade, pontos de troca de tráfego e redes de distribuição de conteúdo.
- Infraestrutura para a IA brasileira: Como vimos no artigo sobre o fim dos chatbots burros, a IA agêntica demanda processamento massivo de dados. Um cabo próprio garante que a revolução da inteligência artificial não dependa exclusivamente de rotas controladas por terceiros.
Conclusão: Um Cabo que Vale por 11 Países
O cabo submarino BRICS não é só sobre fibra óptica — é sobre quem controla os dados que movem a economia digital. Para o Brasil, que já é um hub natural de conectividade com potencial de expandir esse papel com infraestrutura própria, o projeto representa uma oportunidade de liderar a construção de uma internet mais distribuída e menos dependente das rotas tradicionais.
Com o estudo de viabilidade em andamento, o financiamento do NDB encaminhado e a Índia mantendo o tema na agenda da presidência do bloco, o plano está mais próximo de sair do papel do que esteve em qualquer outro momento desde 2012. Seja para reduzir a latência, baratear a conexão ou simplesmente garantir que seus dados não passem por servidores que você nem sabe onde ficam, esse fio no fundo do oceano vai impactar a sua internet nos próximos anos. O futuro da internet está sendo cabulado no fundo do mar — e o Brasil está no centro do mapa.
