Se você já entrou em qualquer site nos últimos anos, já passou por isso: uma caixa aparece no canto da tela dizendo “Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Clique em Aceitar para continuar”. Você clica em “Aceitar” sem ler — todo mundo faz — e segue a vida. Mas, afinal de contas, o que são cookies?
Não, não são biscoitos digitais, embora o nome tenha vindo daí. E não, eles não são vírus, apesar de muita gente achar que sim. Os cookies são uma das invenções mais simples e mais importantes da internet moderna — e, ao mesmo tempo, uma das mais incompreendidas. Neste artigo, vamos explicar o que eles são, como funcionam e por que você os encontra em cada esquina da web.
O Crachá de Visitante do Mundo Digital
Imagine que você vai a uma conferência. Na entrada, alguém te entrega um crachá com seu nome. A cada estande que você visita, o expositor olha para o seu crachá e diz: “Ah, você é o Rafael! Que bom te ver de novo. Da última vez, você tinha gostado daquele produto azul, certo?”.
Um cookie é exatamente esse crachá. É um pequeno arquivo de texto que o site salva no seu navegador. Quando você volta ao mesmo site, o navegador mostra o crachá — ou seja, o cookie — e o site diz: “Ei, eu me lembro de você!”. Essa lembrança pode ser útil: é graças aos cookies que você não precisa digitar sua senha toda vez que entra no Gmail, que aquele item que você colocou no carrinho continua lá mesmo depois de você fechar a página, e que o YouTube recomenda vídeos baseados no que você já assistiu.
O nome “cookie” veio do termo “magic cookie”, usado por programadores nos anos 1970 para descrever um pequeno pacote de dados trocado entre programas. Mas a inspiração real foram os fortune cookies — aqueles biscoitos da sorte chineses que vêm com uma mensagem dentro. A ideia era a mesma: um pequeno pacote com uma informação escondida.
Os cookies foram inventados em 1994 por Lou Montulli, um engenheiro de 23 anos da Netscape, a empresa que criou o primeiro navegador comercial. Na época, Montulli estava tentando resolver um problema: sites não conseguiam “lembrar” dos visitantes. Cada vez que você carregava uma página, o servidor te tratava como um completo estranho. Montulli adaptou o conceito de “magic cookie” para a web e criou o cookie de navegador — uma solução tão elegante que, quase 30 anos depois, ainda é usada por praticamente todos os sites do planeta.
Cookies de Sessão e Cookies Persistentes: Os Dois Tipos Básicos
Existem dois tipos principais de cookies:
- Cookies de sessão: São temporários. Eles duram apenas enquanto você está navegando no site e são apagados quando você fecha o navegador. São eles que permitem que você navegue entre páginas sem perder suas preferências ou o conteúdo do seu carrinho de compras.
- Cookies persistentes: Têm data de validade e permanecem no seu navegador mesmo depois que você fecha a janela. São eles que permitem que um site se lembre do seu login ou das suas preferências de idioma semanas depois da sua última visita.
Cookies de Primeira Parte e de Terceira Parte: A Grande Polêmica
Aqui começa a parte que interessa — e que explica por que você vê tantos pop-ups pedindo para aceitar cookies.
- Cookies de primeira parte (first-party): São criados pelo próprio site que você está visitando. Se você está no
waveneo.com, os cookies de primeira parte são criados pelo WaveNeo. Eles são geralmente inofensivos e úteis. - Cookies de terceira parte (third-party): São criados por outros domínios — geralmente anunciantes e redes de publicidade — que têm código embutido no site que você está visitando. Quando você entra em um site de notícias, por exemplo, pode haver dezenas de cookies de terceira parte sendo instalados — daquela loja onde você viu um tênis, daquela rede social, daquele serviço de anúncios. São esses cookies que fazem aquele tênis “te perseguir” pela internet depois que você olhou para ele uma vez.
É por causa dos cookies de terceira parte que a LGPD e o GDPR europeu obrigam os sites a pedirem sua permissão. E é por isso que o Google anunciou, para 2025, o fim dos cookies de terceira parte no Chrome — uma decisão que vai reconfigurar completamente o mercado de publicidade digital. A ironia é que o Google passou os últimos cinco anos adiando essa data: o “cookie apocalypse” foi anunciado para 2022, depois para 2024, e finalmente para 2025. O mercado de publicidade digital — estimado em mais de US$ 600 bilhões — depende tanto dos cookies de terceira parte que nem mesmo o Google consegue simplesmente desligá-los sem causar um terremoto.
E o Lado Bizarro? Os Cookies “Zumbis” e o Caso do Google Processado
Se você acha que cookies já são estranhos, espere até conhecer os cookies zumbis. São cookies que se recusam a morrer. Mesmo que você os apague, eles reaparecem — usando backups escondidos em outros lugares do seu navegador, como o armazenamento Flash, o Local Storage do HTML5 ou até mesmo cabeçalhos de cache. A prática é tão controversa que já gerou processos contra empresas como a Quantcast e a Clearspring.
Mas o caso mais surreal envolvendo cookies é o do Google. Em 2024, a empresa foi processada porque o modo anônimo do Chrome continuava rastreando usuários através de cookies — uma contradição tão flagrante que gerou um processo coletivo de US$ 5 bilhões. O Google concordou em destruir “bilhões de registros de dados” como parte do acordo. Isso mesmo: o modo anônimo não era tão anônimo assim.
Por Que Você Deve se Importar com Isso?
Os cookies não são vilões, mas também não são santos. Eles tornam a internet mais conveniente, mas também abriram as portas para um ecossistema de vigilância comercial que rastreia cada passo seu — não porque alguém quer “te espionar”, mas porque seus dados valem dinheiro. Como já discutimos em nossa análise sobre o fim do tráfego orgânico e a nova era da internet ‘Silicon Friendly’, a linha entre conveniência e invasão de privacidade está cada vez mais tênue — e os cookies estão bem no meio desse fogo cruzado.
Da próxima vez que um site perguntar se você aceita cookies, você saberá exatamente o que está dizendo “sim” — e o que está entregando em troca.
