Antes da Internet, existia o Creeper: O primeiro vírus da história completa 55 anos

Fotografia de um terminal de computador antigo dos anos 70 exibindo a mensagem 'I'M THE CREEPER: CATCH ME IF YOU CAN' em letras verdes brilhantes em uma tela escura.1971: O momento em que o primeiro vírus de computador da história anunciou sua chegada na ARPANET.

Quando pensamos em vírus de computador, imaginamos ameaças que roubam dados, criptografam arquivos ou derrubam sistemas inteiros. Mas o primeiro vírus de computador da história não foi criado para destruir nada. Ele era apenas um experimento. E, em vez de se esconder, ele anunciava sua presença com uma mensagem que entraria para a história: “I’M THE CREEPER: CATCH ME IF YOU CAN”.

Essa história começa em 1971, quando a internet ainda era um embrião chamado ARPANET, os computadores ocupavam salas inteiras, e um engenheiro chamado Bob Thomas decidiu testar os limites da programação criando um programa que se movia sozinho entre máquinas.

O Nascimento do Creeper

Bob Thomas trabalhava na BBN Technologies, empresa contratada pelo governo americano para desenvolver a ARPANET, a rede que deu origem à internet. Ele não era um hacker mal-intencionado. Era um pesquisador curioso que queria explorar a capacidade de programas viajarem entre computadores.

O Creeper foi escrito para rodar em máquinas DEC PDP-10, que usavam o sistema operacional TENEX. Ele infectava um computador, exibia a mensagem provocativa na tela, e imediatamente tentava se transferir para outra máquina na rede. Ao chegar no novo hospedeiro, o programa se apagava da máquina anterior — ou seja, ele não se multiplicava, apenas “pulava” de um computador para outro.

Isso significa que o Creeper sequer era um vírus no sentido moderno da palavra. Era mais um “worm” (verme), um programa que se movimenta sozinho por uma rede. Mas seu impacto simbólico foi imenso: pela primeira vez na história, um programa de computador agiu com autonomia para se espalhar.

O Primeiro Antivírus: Reaper

Se o Creeper foi o primeiro vírus, o Reaper foi o primeiro antivírus. Criado por Ray Tomlinson — o mesmo engenheiro que inventou o e-mail e o uso do símbolo “@” para endereços eletrônicos —, o Reaper era uma variação do próprio Creeper.

Em vez de exibir mensagens, o Reaper percorria a ARPANET procurando cópias do Creeper e as deletava. Era um programa desenhado para caçar e eliminar outro programa. O conceito era idêntico ao dos antivírus modernos: um software que vasculha sistemas em busca de código malicioso.

Tomlinson, na verdade, havia sido o responsável por corrigir a versão original do Creeper, permitindo que ele realmente se replicasse entre máquinas da rede. Ao perceber que sua correção poderia sair do controle, ele próprio criou o Reaper como uma solução. Curiosamente, o Reaper também se espalhava pela rede — ou seja, o primeiro antivírus era, tecnicamente, um vírus também.

Por Que o Creeper Era Inofensivo?

O Creeper não roubava senhas, não corrompia arquivos e não exigia resgate. A única coisa que ele fazia era exibir sua mensagem e desaparecer da máquina original. A ARPANET era uma rede restrita a universidades e centros de pesquisa, com poucas dezenas de computadores conectados. Não havia dados bancários, redes sociais ou segredos de Estado circulando por ali — apenas artigos científicos e discussões acadêmicas.

Não foi um ataque. Foi uma prova de conceito. E, como prova de conceito, foi brilhante: mostrou que código podia viajar entre máquinas, e que isso era tão fascinante quanto preocupante.

O Legado do Creeper

O Creeper deixou de existir há mais de 50 anos, mas seu espírito sobrevive em cada alerta de segurança que recebemos. A dinâmica que ele inaugurou — um programa se espalha, outro programa o caça — é a base de toda a indústria de cibersegurança atual.

Em 2021, a história do Creeper ganhou nova vida quando pesquisadores de cibersegurança o recriaram como parte de um estudo acadêmico. A “ressurreição” do vírus mais antigo do mundo foi um lembrete de que, às vezes, as ameaças mais antigas ainda têm lições a ensinar.

Da próxima vez que seu antivírus alertar sobre uma ameaça, lembre-se: tudo começou com um programa que só queria ser encontrado.